Os 12 temas

Quem decide onde o dinheiro federal é gasto na sua cidade

1 de 14

Quem decide onde o dinheiro federal é gasto na sua cidade

Por que importa

Por que isso mexe com a sua vida

Posto de saúde, creche, asfalto e ambulância na sua cidade são pagos em grande parte com dinheiro de Brasília. Em 2024, de cada R$ 100 que entraram nas prefeituras, cerca de R$ 66 vieram de repasses da União e dos estados e só R$ 34 de impostos próprios, como IPTU e ISS [1]. Quem decide para onde vai esse dinheiro decide o que a sua cidade vai ter.

O que decide

O que decide se funciona

O dinheiro federal chega por três caminhos: fórmula automática, escolha de deputados e senadores, ou escolha dos ministérios. O resultado depende menos do caminho e mais de duas coisas: se o critério é público antes de o dinheiro sair, e se alguém confere depois o que foi feito com ele.

Deu certo

Quando a emenda deu certo

Emenda parlamentar é a parte do orçamento que cada deputado ou senador destina à sua base, e desde 2015 a Constituição obriga o governo a pagar [2]. Entre 2015 e 2019, o repasse fixo do Ministério da Saúde para postos de saúde caiu de R$ 6,04 bilhões para R$ 5,51 bilhões, e as emendas para o mesmo fim subiram de R$ 95 milhões para R$ 5,58 bilhões [3]. Quando o ministério encolheu, o parlamento segurou os postos.

Deu errado

Quando a emenda deu errado

Entre 2020 e 2022, mais de R$ 53 bilhões foram distribuídos por emendas de relator sem que se soubesse qual parlamentar pediu nem para onde ia o dinheiro [4]. Em dezembro de 2022 o Supremo Tribunal Federal declarou essa prática, o orçamento secreto, incompatível com a Constituição [5]. As emendas Pix, que caem direto na conta da prefeitura sem projeto prévio, também falharam: o Tribunal de Contas da União examinou R$ 198 milhões em 73 municípios e achou irregularidade em 82% dos repasses [6].

Deu certo

Quando a fórmula deu certo

O Fundo de Participação dos Municípios reparte 22,5% do Imposto de Renda e do imposto sobre produtos industrializados entre as prefeituras por faixa de população, com crédito três vezes por mês, sem que ninguém precise pedir a deputado ou ministro [7]. Em 2024 foram R$ 177 bilhões [1]. A Lei Paulo Gustavo repartiu R$ 3,862 bilhões para a cultura entre todos os estados e municípios pela mesma lógica, 80% por população [8][9].

Deu errado

Quando a fórmula deu errado

A fórmula do Fundo tem degraus: um município com 10.188 moradores que ganha um único morador passa a receber 33% a mais [10]. Isso incentiva inflar a contagem de habitantes e dividir cidades em duas. No Censo de 2010, o IPEA, instituto de pesquisa do governo federal, estimou que 192 de 3.565 municípios estavam mal classificados, desviando mais de R$ 200 milhões por ano [10]. E a fórmula não olha a necessidade.

Deu certo

Quando o programa nacional deu certo

No Mais Médicos, o Ministério da Saúde decide onde colocar cada médico por um índice de vulnerabilidade social, com prioridade para Amazônia, fronteira, terras indígenas e quilombos [11]. É um critério único para o país, aplicado também onde nenhum parlamentar tem base. O Brasil passou de 1,8 médico por mil habitantes em 2013 para 2,4 em 2022, e o Norte ainda tinha 1,4 [11].

Deu errado

Quando o programa nacional deu errado

Dinheiro que depende de decisão em Brasília depende de quem está em Brasília: com dados de 2009 a 2016, prefeitos do partido do presidente pediram muito mais recursos que os de oposição [12]. E a execução falha: das 22 mil obras com dinheiro federal mapeadas pelo Tribunal de Contas da União até abril de 2025, 11 mil estavam paradas, com R$ 15,9 bilhões já gastos [13].

O dilema

O dilema

Você escolhe quem aponta o dedo no mapa: o deputado que você elegeu e conhece a sua cidade, mas responde à própria reeleição; uma fórmula que trata todos pela mesma regra, mas não sabe do que a sua cidade precisa; ou o ministério, que segue um plano para o país inteiro, mas muda com o governo.

A seguir, os caminhos, um por tela, cada um com o que faz, o que custa e o argumento mais forte de cada lado.

Um caminho

Emendas parlamentares como hoje, com pagamento obrigatório

O que faz

mantém as emendas individuais e de bancada com pagamento obrigatório, 2% e 1% da receita corrente líquida, que é o que a União arrecada descontados os repasses obrigatórios [5][14]. Deputados e senadores indicam obras, equipamentos e custeio nas cidades que representam. Em 2025 são cerca de R$ 58 bilhões [15].

O que custa

as emendas são 16,8% de toda a despesa que o governo pode escolher onde gastar, contra 11,1% em 2020 [2]. Cada real que o parlamentar aponta é um real a menos para um programa nacional, e a fiscalização chega depois, como nas emendas Pix [6].

Argumento mais forte a favor

quem conhece a cidade é quem foi eleito por ela. O ministério não sabe que a ponte caiu nem que a Santa Casa precisa de tomógrafo; o deputado sabe, e o eleitor cobra dele. Foram as emendas que seguraram os postos de saúde quando o ministério encolheu [3].

Argumento mais forte contra

o dinheiro vai onde há voto, não onde há necessidade. A emenda não chegou a todos os municípios [3], e quem controla a distribuição ganha poder sobre o governo, como no orçamento secreto [4][5].

Um caminho

Repasse automático por fórmula, com rastreamento público

O que faz

transfere o dinheiro federal a estados e municípios por regra fixa, como o Fundo de Participação dos Municípios [7], com critérios de população e indicadores sociais, como pobreza e mortalidade infantil. A prefeitura decide o uso e presta contas em portal público. A regra só muda por lei.

O que custa

a escolha passa de Brasília ao prefeito, e a fiscalização aos tribunais de contas locais. A fórmula é cega: não vê que uma cidade precisa de hospital e outra de estrada. E todo degrau na regra vira incentivo para manipular o dado que define a cota [10].

Argumento mais forte a favor

o critério é público antes de o dinheiro sair, e ninguém precisa de padrinho. Dinheiro que chega no dia certo sem pedir favor tira a barganha do orçamento, e a Lei Paulo Gustavo mostrou que dá para repartir bilhões entre todos os municípios por regra escrita em lei [8][9].

Argumento mais forte contra

fórmula trata desigual como igual. A cidade pequena recebe mais por habitante que a grande, precise ou não, e premiar pobreza pode premiar o prefeito que não arrecada. Sem alguém decidindo, ninguém corrige um erro nem responde por ele.

Um caminho

Verbas nos ministérios, distribuídas por programas nacionais

O que faz

concentra o dinheiro não obrigatório nos ministérios, que o distribuem por programas nacionais com critérios técnicos, metas e editais, como o Mais Médicos [11]. O governo eleito pelo país inteiro define as prioridades, e prefeituras se inscrevem e recebem se cumprirem os requisitos.

O que custa

se isso é bom ou ruim depende de você confiar no governo do momento, e o governo muda a cada quatro anos. Prefeitos aliados do presidente pedem muito mais recursos que os de oposição [12], e um programa desenhado em Brasília pode não enxergar a sua cidade.

Argumento mais forte a favor

só um plano nacional coloca médico onde nenhum deputado tem voto, compra em escala e planeja por décadas [11]. Saúde e educação seguem um desenho único para o país, em vez de milhares de pedaços decididos por força no Congresso.

Argumento mais forte contra

o dinheiro vira moeda de troca com o Congresso e com prefeitos aliados [12], e a execução falha: 11 mil obras paradas e R$ 15,9 bilhões já gastos [13]. O próprio Tribunal de Contas da União não achou evidência de que retomar o Mais Médicos era a melhor alternativa [11].

A sua escolha

O que você escolheria

Toque no caminho que você seguiria. Dá para mudar depois, e deixar em aberto conta como resposta.

Quem decide onde o dinheiro federal é gasto na sua cidade

Ver o meu retratoVer os doze

Reportar um problema

Erro de fato, número errado, fonte que não confere, opção mal descrita, texto confuso, algo quebrado na tela. Tudo serve.

O que é enviado junto
  • O texto que você escrever acima, e o contato se você preencher.
  • Qual tela você estava lendo.
  • A versão exata do texto desta tela, que é um código curto como 21fd7ea4. Serve para sabermos qual redação você viu, porque o texto muda com o tempo.
  • O tamanho da janela, que ajuda a reproduzir problema de tela.

Não vai o que você marcou nos temas, não vai o que você escreveu no painel de dúvida, e não vai nada que identifique você.

Isto aqui fica gravado. É a única parte do guia que guarda o que você escreve, e guarda porque um relato que some não conserta nada.

Fontes

  1. Boletim de Finanças dos Entes Subnacionais 2025, ano-base 2024, Secretaria do Tesouro Nacional, fevereiro de 2026, tabelas de receitas municipais e de transferências da União aos municípios. abre em nova aba
  2. Nota Técnica 57, Despesas discricionárias e emendas parlamentares 2014 a 2024, Instituição Fiscal Independente do Senado, novembro de 2024. abre em nova aba
  3. Distorções das emendas parlamentares à alocação equitativa de recursos federais ao PAB, Revista de Saúde Pública, volume 56, 2022. abre em nova aba
  4. Voto da relatora no julgamento da ADPF 854, Supremo Tribunal Federal, dezembro de 2022, cópia hospedada pelo Conjur porque o arquivo original no site do STF não abriu nesta sessão. abre em nova aba
  5. Nota Informativa, Decisões do STF sobre emendas parlamentares, Consultoria de Orçamentos do Senado, fevereiro de 2025. abre em nova aba
  6. TCU apresenta relatório consolidado de auditorias em emendas parlamentares, Acórdão 2004/2026 do Plenário, portal do TCU, julho de 2026. abre em nova aba
  7. Cartilha do Fundo de Participação dos Municípios, Secretaria do Tesouro Nacional. abre em nova aba
  8. Câmara analisa projeto da Lei Paulo Gustavo, Agência Câmara de Notícias, janeiro de 2022. abre em nova aba
  9. Recursos da Lei Paulo Gustavo podem ser usados até 31 de dezembro de 2023, portal do TCU, julho de 2023. abre em nova aba
  10. Texto para Discussão 1818, O FPM e a estranha distribuição da população dos pequenos municípios brasileiros, IPEA, março de 2013. abre em nova aba
  11. Relatório de políticas, Programa Mais Médicos, TCU, sessão de agosto de 2025. abre em nova aba
  12. Alinhamento partidário e demanda por transferências federais no Brasil, Revista de Administração Pública, 2019. abre em nova aba
  13. Mais de 20% das obras iniciadas entre abril de 2024 e abril de 2025 estão paralisadas, Painel de Obras Paralisadas, portal do TCU, agosto de 2025. abre em nova aba
  14. Emenda Constitucional 100, de 26 de junho de 2019, publicação original, Câmara dos Deputados. abre em nova aba
  15. Orçamento de 2025 tem mais recursos para atendimento das demandas de parlamentares, Agência Câmara de Notícias, março de 2025. abre em nova aba

Perguntar sobre este tema

A conversa não fica gravada e some quando você sai da página. Só o texto deste tema e a sua mensagem são enviados.

Fonte

Abrir em nova aba

Leitura

Tamanho da letra
Fundo