Estatais e o papel do Estado na economia
Por que importa
Por que isso mexe com a sua vida
Luz, água, correio, gasolina, aeroporto, estrada e o banco onde cai o seu salário são prestados ou pelo governo, por meio de empresas estatais, ou por empresas privadas sob contrato. Quem faz o quê é uma das escolhas que mais muda de governo para governo.
O que decide
O que decide se funciona
A experiência brasileira mostra que a qualidade do serviço depende menos de quem é o dono e mais de duas coisas: se você pode trocar de fornecedor quando o serviço é ruim, e se alguém fiscaliza de verdade quando você não pode trocar.
Deu certo
Quando a privatização deu certo
Até 1998 o telefone era um monopólio estatal sem dinheiro para crescer: o país tinha 20 milhões de linhas fixas e só o aparelho custava cerca de mil dólares [4]. O governo vendeu o sistema Telebras por R$ 22 bilhões, com ágio de 63% sobre o preço mínimo [3], dividiu o mercado entre operadoras concorrentes e criou a Anatel para fiscalizar. Desde então as empresas investiram mais de R$ 1 trilhão, as linhas fixas chegaram a 27 milhões e hoje há 242 milhões de celulares para 214 milhões de habitantes [4]. Parte disso é tecnologia nova, parte é concorrência. Outro caso: em 2012 o aeroporto de Guarulhos foi concedido a uma empresa privada, que construiu em 21 meses um terminal para 12 milhões de passageiros por ano e vai se pagar cobrando tarifa até 2032 [9].
Deu errado
Quando a privatização deu errado
Em São Paulo, a distribuição de luz é feita por uma única empresa privada, a Enel, e você não pode trocar. Depois de uma tempestade em novembro de 2023, cerca de 2 milhões de imóveis ficaram sem energia, alguns por uma semana. A agência reguladora aplicou a maior multa da história do setor, R$ 165 milhões, que a empresa contestou na Justiça [8]. Sem concorrência, a fiscalização era a única proteção, e ela chegou depois.
Deu certo
Quando a estatal faz o que ninguém faria
Os Correios entregam em todos os 5.567 municípios do país. Só 15% das agências dão lucro. As outras 85% são pagas pelo lucro das primeiras, e essa obrigação consumiu 27% de todos os gastos da empresa em 2024, que fechou o ano com prejuízo de R$ 2,6 bilhões [2]. O programa Luz para Todos levou energia a 3,6 milhões de casas na zona rural com dinheiro público [5]. E as estatais também geram receita: em 2025 elas lucraram R$ 169 bilhões e pagaram R$ 84 bilhões em dividendos, que é a parte do lucro entregue aos donos. Desse total, R$ 46 bilhões foram para a União e entraram no caixa geral do governo, o mesmo que paga saúde, aposentadoria e escola. Os outros R$ 38 bilhões foram para acionistas privados, pessoas e fundos no Brasil e fora, porque Petrobras e Banco do Brasil têm ações na bolsa: o Estado manda, mas divide o lucro [1].
Deu errado
Quando a estatal deu errado
Entre 2011 e 2014 o governo usou a Petrobras para segurar o preço da gasolina e do diesel abaixo do preço internacional, para conter a inflação. Um conselheiro eleito pelos acionistas minoritários estimou em R$ 100 bilhões o que a empresa deixou de ganhar [6]. No mesmo período a empresa foi palco de um esquema de corrupção comprovado, do qual recuperou R$ 7,3 bilhões até 2023 [7]. Manter estatais também tem uma conta fixa: 17 das 44 empresas federais não se sustentam e receberam R$ 30,9 bilhões do Tesouro em 2025, a maior parte hospitais universitários e a Embrapa, que não existem para dar lucro [1].
O dilema
O dilema
Você escolhe quem controla serviços que não pode deixar de usar: um governo que muda a cada quatro anos e pode usar a empresa para o que você considera bom ou ruim, ou empresas privadas que buscam lucro e só entregam qualidade onde há concorrência ou fiscalização que funcione.
A seguir, os caminhos, um por tela, cada um com o que faz, o que custa e o argumento mais forte de cada lado.
Um caminho
Manter as estatais como instrumento de política pública
O que faz
mantém Petrobras, Caixa, Banco do Brasil, Correios e as demais sob controle do Estado. O governo eleito decide o que elas fazem: segurar o preço do diesel, financiar casa própria com juro baixo, construir refinaria numa região pobre, manter agência bancária em cidade pequena.
O que custa
quando a ordem do governo dá prejuízo, quem paga é a empresa e, no fim, o contribuinte e o acionista. E as ordens mudam a cada eleição: se isso é bom ou ruim depende de você confiar no governo do momento, e o governo muda.
Argumento mais forte a favor
só uma empresa que obedece ao governo aceita fazer o que não dá lucro, como levar energia à zona rural ou entregar carta em 5.567 municípios, e o lucro das que dão certo volta para o caixa público.
Argumento mais forte contra
uma empresa que obedece ao governo também obedece quando a ordem é ruim, e isso custou mais de R$ 100 bilhões em preço segurado e corrupção comprovada na última vez em que foi tentado em grande escala.
Um caminho
Conceder a operação ao setor privado, com regulação forte
O que faz
o Estado continua dono da rodovia, do aeroporto e da rede de água, mas contrata uma empresa por 20 ou 30 anos [10] para operar e investir, cobrando tarifa. O contrato fixa metas de qualidade e cobertura, e uma agência reguladora fiscaliza e multa. Ficam no Estado o que é estratégico e a pesquisa, como Petrobras, bancos públicos e Embrapa.
O que custa
você fica décadas preso a um contrato, e se a agência for lenta ou fraca, paga tarifa alta por serviço ruim sem poder trocar, como em São Paulo em 2023.
Argumento mais forte a favor
quase todo o orçamento federal já está comprometido com aposentadorias, salários e saúde, e sobra pouco para obra nova. A concessionária levanta bilhões com bancos e investidores, constrói agora e recebe de volta na tarifa, como o terminal de Guarulhos.
Argumento mais forte contra
em água, luz e esgoto não há concorrência, você não escolhe a distribuidora. O lucro da empresa cresce quando ela corta manutenção e equipe, e a multa vem anos depois, se vier.
Um caminho
Privatizar amplamente e deixar o Estado com o essencial
O que faz
vende as estatais que têm comprador, incluindo Petrobras e bancos públicos, abre os mercados à concorrência, e o Estado fica com segurança, justiça, regulação e o que ninguém mais faz. O dinheiro da venda abate a dívida pública.
O que custa
o Estado perde os dividendos, que foram R$ 46 bilhões em 2025 e perde a ferramenta de agir em crise. Sem banco público não há crédito de emergência por decisão do governo, e sem petroleira não há como segurar preço de combustível, para o bem ou para o mal.
Argumento mais forte a favor
onde houve venda com concorrência, como na telefonia, o serviço que era raro e caro virou barato e universal, e o Estado deixou de ser refém de uma empresa que ele mesmo controla mal.
Argumento mais forte contra
vender em momento ruim entrega o ativo barato, e o comprador de uma refinaria ou de um banco decide pelo lucro dele, não pela sua cidade: a agência em cidade pequena fecha e o combustível vai para quem paga mais.
A sua escolha
O que você escolheria
Toque no caminho que você seguiria. Dá para mudar depois, e deixar em aberto conta como resposta.
Estatais e o papel do Estado na economia
Fontes
- Anexo I do Relatório Agregado das Empresas Estatais Federais 2026, ano-base 2025, planilha com uma linha por empresa e por ano, Sest. abre em nova aba
- Relatório da Administração 2024, Correios. abre em nova aba
- Privatização das telecomunicações federais, BNDES. abre em nova aba
- Privatização das telecomunicações faz 25 anos, CNN Brasil, julho de 2023. abre em nova aba
- Programa Luz para Todos, sobre o programa, Ministério de Minas e Energia. abre em nova aba
- Política de preço da Petrobras custou R$ 100 bilhões, depoimento de conselheiro dos minoritários à CPI em 2015, Exame. abre em nova aba
- Petrobras, demonstrações financeiras do 2º trimestre de 2024 enviadas à SEC: R$ 7.281 milhões recuperados da Lava Jato até 31 de dezembro de 2023. abre em nova aba
- Aneel multa Enel em R$ 165 milhões por apagão em SP, Poder360, fevereiro de 2024. abre em nova aba
- Histórico do GRU Airport e página da concessão de Guarulhos na ANAC. abre em nova aba Segunda página desta fonte abre em nova aba
- Concessão da BR-116/465/493 (RJ/MG), prazo de 30 anos, e informações gerais sobre concessões rodoviárias, ANTT. abre em nova aba Segunda página desta fonte abre em nova aba